A reciclagem de plásticos no Brasil segue sustentada por um mito perigoso: o de que todo material identificado como “reciclável” de fato retorna ao ciclo produtivo. A segunda edição da pesquisa “Catadores por Menos Plástico”, conduzida pelo Instituto de Direito Coletivo (IDC) em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF), mostra que essa lógica não apenas persiste como aprofunda prejuízos sociais, ambientais e econômicos para os trabalhadores da reciclagem.
Realizado entre julho e dezembro de 2025, o novo levantamento acompanhou o trabalho de 20 associações e cooperativas de catadores, na capital e no interior do estado do Rio de Janeiro, mantendo o mesmo recorte territorial da primeira edição para permitir a comparação dos dados. Os resultados confirmam o cenário já identificado em 2024: os plásticos seguem como a principal categoria entre os rejeitos das cooperativas. Na segunda edição do estudo, eles representam cerca de 45% do material que não é reciclado e acaba destinado a aterros, lixões ou ao meio ambiente, mantendo-se como o maior componente do rejeito, apesar da redução em relação à edição anterior.
Além de confirmar a baixa reciclabilidade real das embalagens plásticas, a segunda edição da pesquisa aprofunda a mensuração dos danos econômicos e trabalhistas impostos aos catadores. O estudo aponta que cada catador perde, em média, 15,59 horas de trabalho por mês na triagem de plásticos que não têm valor de mercado — o equivalente a 9,38% do tempo mensal de trabalho, ou aproximadamente 2,08 dias de trabalho por mês dedicados a resíduos que não geram qualquer retorno financeiro
Em termos econômicos, a pesquisa estima que as 17 associações e cooperativas incluídas no cálculo deixam de arrecadar, mensalmente, entre R$ 1.179,03 e R$ 3.771,72, apenas considerando os tipos de plásticos que já possuem valor de mercado em pelo menos um dos territórios analisados. A variação decorre dos diferentes preços praticados na comercialização do PET Bandeja, que pode oscilar entre R$ 0,30 e R$ 3,70 por quilo, dependendo da forma de triagem e do comprador final
Segundo Tatiana Bastos, presidente do Instituto de Direito Coletivo (IDC), os dados escancaram uma distorção estrutural do sistema: “Estamos falando de quase 15 horas de trabalho desperdiçadas por catador todos os meses e de uma perda financeira recorrente para cooperativas que já operam no limite. Isso demonstra a falha do modelo de produção de embalagens e a ausência de responsabilidade real da indústria.”
Outro dado preocupante é o aumento da taxa geral de rejeitos nas amostras analisadas, especialmente nas cooperativas da capital, indicando uma piora na qualidade dos materiais encaminhados à coleta seletiva. “O que chamamos de reciclagem hoje transfere custo, tempo e desgaste físico para os catadores. Eles trabalham mais para ganhar menos, enquanto a indústria continua produzindo embalagens inviáveis do ponto de vista técnico ou econômico”, afirma Tatiana.
A pesquisa também realizou uma auditoria de marcas, identificando grupos empresariais responsáveis por grande parte das embalagens plásticas encontradas entre os rejeitos. Embora quase 200 empresas tenham sido identificadas, um número reduzido de grupos empresariais aparece de forma recorrente entre as embalagens encontradas nas cooperativas, reforçando a necessidade de responsabilização efetiva da indústria por meio da logística reversa e do redesenho de embalagens.
Os resultados da primeira edição do estudo já embasaram o Projeto de Lei nº 5.392/2025, em tramitação na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), que propõe a eliminação progressiva de embalagens não recicláveis, regras mais rígidas de rotulagem e o pagamento direto aos catadores pelos serviços ambientais prestados. A nova edição fortalece ainda mais essa agenda, ao demonstrar que o problema não é pontual, mas estrutural.
Para o IDC, combater o greenwashing e avançar rumo a uma economia circular justa exige mudanças urgentes na origem do problema. “Não existe reciclagem possível quando o produto já nasce como rejeito. Enquanto isso não mudar, o sistema continuará injusto com quem sustenta a reciclagem no Brasil”, conclui Tatiana Bastos.


